Como e porque sou romancista, de Jos de Alencar

Fonte:
ALENCAR, Jos de. Como e porque sou romancista. Campinas, SP : Pontes, 1990.

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de So Paulo
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Texto-base digitalizado por:
Marciana Maria Muniz Guedes - So Paulo/SP

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COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA
Jos de Alencar


APRESENTAO

         
         
         
         
         "Como e Porque Sou Romancista"  a autobiografia intelectual de Jos de Alencar, importante para o conhecimento de sua personalidade e dos alicerces de 
sua formao literria.
         
         O texto sob a forma de carta, foi escrito em 1873 e publicado em 1893, pela Tipografia Leuzinger. Entre suas reedies, merece meno a da Academia Brasileira 
de Letras, de 1987, conservando a ortografia original, apresentada pelo Prof. Afrnio Coutinho, com a erudio e clareza marcantes de sua crtica.
         
         A presente edio, com o objetivo de tornar mais acessvel a leitura, atualizou a ortografia do texto alencariano. Manteve-se, entretanto, a pontuao original 
que, no dizer de M. Cavalcanti Proena,  "elemento caracterstico da prosa alencariana, subordinando-se muito menos s regras vigentes na poca do que ao ritmo 
fraseolgico, tal qual o concebera e criara".
         
         Afrnio Coutinho definiu esta carta como "autntico roteiro de teoria literria, o qual, reunido a outros ensaios de sua lavra, pode bem constituir um corpo 
de doutrina esttica literria, que o norteou em sua obra de criao propriamente dita, sobretudo no romance".
         
         O autor enfatizou, em sua formao escolar, a importncia dada  leitura, com a correo, nobreza, eloqncia e alma que o mestre Janurio Mateus Ferreira 
sabia transmitir a seus alunos. Ainda menino, como ledor dos seres da famlia, teve oportunidade de contnuo e repetido contacto com um escasso repertrio de romances, 
cujos esquemas iam ficando gravados em seu  esprito.
         
         J cursando a Faculdade de direito, em So Paulo, com grande esforo, dominou o idioma francs para ler obras de Balzac, Dumas, Vigny, Chateaubriand e Victor 
Hugo.
         
         
         
         
         
         "A escola francesa, que eu ento estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado 
pr mera casualidade aquele arrojo de criana a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com, a elegncia e beleza que jamais lhe 
poderia dar."
         
          influncia das leituras na sua formao de escritor, sobreps Alencar o valor da imaginao:
         
         "Mas no tivera eu herdado de minha santa me a imaginao de que o mundo apenas v flores, desbotadas embora, e de que eu sinto a chama incessante, que 
essa leitura de novelas mal teria feito de mim um mecnico literrio, desses que escrevem presepes em vez de romances."
         
         Discordou da crtica literria que atribua   influncia de  Cooper o paisagismo de O  Guarani.
         
         "Disse algum, e repete-se pr a, de outiva, que O Guarani  um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidncia, e nunca imitao; mas 
no . Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as vrzeas do cear com as margens do Delaware."
         
         Segundo Heron de Alencar, "j houve quem colocasse em dvida algumas das afirmativas que Alencar inseriu em sua autobiografia literria. Ao escrev-la, 
j era um escritor de renome e no auge  de sua carreira, quatro anos antes de falecer.  possvel, desse modo, que tenha, alguma vez querido vestir de fantasia a 
realidade de sua formao literria, para que a posteridade - sua grande e permanente preocupao - no lhe regateasse admirao e fidelidade. Isso em nada altera 
o julgamento que deve resultar da leitura de sua obra, e esse  o nico julgamento que prevalece."
         
         Para Antnio Cndido, "O escrito mais importante para conhecimento da personalidade  a autobiografia literria "Como e Porque Sou Romancista"...., um dos 
mais belos documentos pessoais da nossa literatura. No h ainda biografia  altura do assunto, podendo-se dizer o mesmo da interpretao crtica. Mas h um conjunto 
de estudos que, somados, permitem bom conhecimento."
         
         
         
         
         
         
         
         I
         
         
         Meu amigo,
         
         Na conversa que tivemos, h cinco dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca de minha peregrinao literria, alguns pormenores dessa parte ntima de nossa 
existncia, que geralmente fica  sombra, no regao da famlia ou na reserva da amizade.
         
         Sabendo de seus constantes esforos para enriquecer o ilustrado autor do Dicionrio Bibliogrfico, de copiosas notcias que ele dificilmente obteria a respeito 
de escritores brasileiros, sem a valiosa coadjuvao de to erudito glosslogo, pensei que me no devia eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena 
quota para a amortizao desta dvida de nossa ainda infante literatura.
         Como bem reflexionou V., h na existncia dos escritores fatos comuns, do viver quotidiano, que todavia exercem uma influncia notvel em seu futuro e imprimem 
em suas obras o cunho individual.
         
         Estes fatos jornaleiros, que  prpria pessoa  muitas vezes passam despercebidos sob a monotonia do presente, formam na biografia do escritor a urdidura 
da tela, que o mundo somente v pela face do matiz e dos recamos.
         
         J me lembrei de escrever para meus filhos essa autobiografia literria, onde se acharia a histria das criaturinhas enfezadas, de que, pr mal de meus 
pecados, tenho povoado as estantes do Sr. Garnier.
         
         Seria  esse o livro de meus livros. Se alguma hora de pachorra, me dispusesse a refazer a cansada jornada dos quarenta e quatro anos, j completos os curiosos 
de anedotas literrias saberiam, alm de muitas outras coisas mnimas, como a inspirao d'O Guarani, pr mim escrito aos 27 anos, caiu na imaginao da criana 
de nove, ao atravessar as matas e sertes do norte, em jornada do Cear  Bahia.
         
         Enquanto no vem ao lume do papel, que para o da imprensa ainda  cedo, essa obra futura, quero em sua inteno fazer o rascunho de um captulo.
         
         Ser daquele, onde se referem as circunstncias, a que atribuo a predileo de meu esprito pela forma literria do romance.
         
         
         
         
         
         
         II
         
         
         
         No ano de 1840, freqentava eu o Colgio de Instruo Elementar, estabelecido  Rua do Lavradio, n 17, e dirigido pelo Sr. Janurio Matheus Ferreira, a 
cuja memria eu tributo a maior venerao.
         
         Depois daquele que  para ns meninos a encarnao de Deus e o nosso humano Criador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em quem acatei o 
smbolo da autoridade.
         
         Quando me recolho da labutao diria com o esprito mais desprendido das preocupaes do presente, e sucede-me ao passar pela Rua do Lavradio pr os olhos 
na tabuleta do colgio, que ainda l est na sacada do n.17, mas com diversa designao; transporto-me insensivelmente quele tempo, em que de fraque e bon, com 
os livros sobraados, eu esperava ali na calada fronteira o toque da sineta que anunciava a abertura das aulas.
         
         Toda a minha vida colegial se desenha no esprito com to vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos j lhes pairaram sobre. 
Vejo o enxame dos meninos, alvoriando na loja, que servia de saguo; assisto aos manejos da cabala para a prxima eleio do monitor geral; ouo o tropel do bando 
que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salo, onde cada um busca o seu banco numerado.
         
         Mas o que sobretudo assoma nessa tela  o vulto grave de Janurio Mateus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mo e a cabea 
reclinada pelo hbito da reflexo.
         
         Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colgio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que no sentisse um involuntrio 
sobressalto.
         
         Janurio era talvez rspido e severo em demasia; orem nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu rduo ministrio. Identificava-se 
com o discpulo; transmitia-lhe suas emoes e tinha o dom de criar no corao infantil os mais nobres estmulos, educando o esprito com a emulao escolstica 
para os grandes certames da inteligncia.
         
         Dividia-se o diretor pr todas as classes, embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus 
alunos, e trazia os mestres como os discpulos em constante inspeo. Quando, nesse revezamento de lies, que ele de propsito salteava, acontecia achar atrasada 
alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, at que obtinha adianta-la e s ento a restitua ao respectivo professor.
         
         Meado o ano, porm, o melhor dos cuidados do diretor voltava-se para as ltimas classes, que ele se esmerava em preparar para os exames.
         
         Eram estes dias de gala e de honra para o colgio, visitado pr quanto havia na Corte de ilustre em poltica e letras.
         
         Pertencia eu  sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, no pr superioridade intelectual, sim pr mais assdua aplicao e maior desejo de 
aprender.
         
         Janurio exultava a cada uma de minhas vitrias, como se fora ele prprio que estivesse no banco dos alunos, a disputar-lhes o lugar, em vez de achar-se 
como professor dirigindo os seus discpulos.
         
         Rara vez sentava-se o diretor; o mais do tempo levava a andar de um a outro lado da sala em passo moderado. Parecia inteiramente distrado da classe, para 
a qual nem volvia os olhos; e todavia nada lhe escapava. O aparente descuido punha em prova a ateno incessante que ele exigia dos alunos, e da qual sobretudo confiava 
a educao da inteligncia.
         
         Uma tarde ao findar a aula, houve pelo meio da classe um erro. - Adiante, disse Janurio, sem altear a voz, nem tirar os olhos do livro. No recebendo resposta 
ao cabo de meio minuto, repetiu a palavra, e assim de seguida mais seis vezes.
         
         Calculando pelo nmero dos alunos, estava na mente de que s  stima vez, depois de chegar ao fim da classe  que me tocava responder como o primeiro na 
ordem da colocao.
         
         Mas um menino dos ltimos lugares tinha sado poucos momentos antes com licena, e escapava-me esta circunstncia. Assim, quando sorrindo eu esperava a 
palavra do professor para dar o quinau, e ao ouvir o stimo adiante, perfilei-me no impulso de responder; um olhar de Janurio gelou-me a voz nos lbios.      
         
         Compreendi; tanto mais quanto o menino ausente voltava a tomar seu lugar. No me animei a reclamar; porm creio que em minha fisionomia se estampou, com 
a sinceridade e a energia da infncia, o confrangimento de minha alma.
         
         Meu imediato e mulo, que me foi depois amigo e colega de ano em So Paulo, era o Aguiarzinho (Dr. Antnio Nunes de Aguiar), filho do distinto general do 
mesmo nome, bela inteligncia e nobre corao ceifados em flor, quando o mundo lhe abria de par em par as suas portas de ouro e prfiro.
         
         Ansioso aguardava ele a ocasio de se desforrar da partida que lhe eu havia ganho, depois de uma luta porfiada - Todavia no lhe acudiu a resposta de pronto; 
e passaria a sua vez, se o diretor no lhe deixasse tempo bastante para maior esforo do que fora dado aos outros e sobretudo a mim - Afinal ocorreu-lhe a resposta, 
e eu com o corao transido, cedi ao meu vencedor o lugar da honra que tinha conquistado de grau em grau, e conseguia sustentar havia mais de dois meses.
         
         Nos trinta anos vividos desde ento, muita vez fui esbulhado do fruto de meu trabalho pela mediocridade agaloada; nunca senti seno o desprezo que merecem 
tais pirraas da fortuna, despeitada contra aqueles que no a incensam.
         
         Naquele momento, porm, vendo perdido o prmio de um estudo assduo, e mais pr surpresa, do que eu traguei silenciosamente, para no abater-me ante a adversidade.
         
         Nossa classe trabalhava em uma varanda ao rs do cho, cercada pelo arvoredo do quintal.
         
         Quando, pouco antes da Ave-Maria, a sineta dava sinal da hora de encerrar as sulas, Janurio fechava o livro; e com o tom breve do comando ordenava uma 
espcie de manobra que os alunos executavam com exatido militar.
         
         Pr causa da distncia da varanda, era quando todo o colgio j estava reunido no grande salo e os meninos em seus assentos numerados, que entrava em passo 
de marcha a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma, em que o geral se avantajava na estatura, fazendo eu assim as vezes de 
um ponto.
         
         A constncia com que me conservava  frente da classe no meio das alteraes que em outras se davam todos os dias, causava sensao no povo colegial; faziam-se 
apostas de lpis e canetas; e todos os olhos se voltavam para ver se o caturrinha do Alencar 2 (era o meu apelido colegial) tinha afinal descido de monitor de classe.
         
         O general derrotado a quem a sua ventura reservava a humilhao de assistir  festa da vitria, jungido ao carro triunfal de seu mulo, no sofria talvez 
a dor que eu ento curti, s com a idia de entrar no salo, rebaixado de meu ttulo de monitor, e rechaado para o segundo lugar.
         
         Se ao menos se tivesse dado o fato no comeo da lio, restava-me a esperana de com algum esforo recuperar o meu posto; mas pr cmulo da infelicidade 
sobreviera o meu desastre justamente nos ltimos momentos, quando a hora estava a findar.
         
         Foi no meio dessas reflexes que tocou a sineta, e as suas badaladas ressoaram em minha alma como o dobre de uma campa. 
         
         Mas Janurio que era acerca de disciplina colegial de uma pontualidade militar, no deu pelo aviso e amiudou as perguntas, percorrendo apressadamente a 
classe. Poucos minutos depois eu recobrava meu lugar, e erguia-me trmulo para tomar a cabea do banco.
         
         O jbilo, que expandiu a fisionomia sempre  carregada do diretor, eu prprio no o tive maior, com o abalo que sofri. Ele no se pde conter e abraou-me 
diante da classe.
         
         Naturalmente a questo proposta e cuja soluo deu-me a vitria, era difcil; e pr isso atribua-me ele o mrito, que no provinha talvez seno da sorte, 
para no dizer do acaso.
         
         Momentos depois entrava eu pelo salo  frente da classe, onde me conservei at o exame.
         
         
         
         
         
         III
         
         
         
         Mais tarde, quando a razo, como o fruto, despontou sob a flor da juventude, muitas vezes cogitei sobre esse episdio de infncia, que deixara em meu esprito, 
uma vaga dvida a respeito do carter de Janurio.
         
         Ento o excessivo rigor que se me tinha afigurado injusto, tomava o seu real aspecto; e me aparecia como o golpe rude, mas necessrio que d tmpera ao 
ao. Porventura notara o diretor de minha parte uma confiana que deixava em repouso as minhas faculdades, e da qual proviera o meu descuido.
         
         Este episdio escolstico veio aqui pr demais, trazido pelo fio das reminiscncias. Serve entretanto para mostrar-lhe o aproveitamento que deviam tirar 
os alunos desse mtodo de ensino.
         
         
         
         Sabamos pouco; mas esse pouco sabamos bem. Aos onze anos no conhecia uma s palavra de lngua estrangeira, nem aprendera mais do que as chamadas primeiras 
letras.
         
         Muitos meninos, porm, que nessa idade tagarelam em vrias lnguas e j babujam nas cincias, no recitam uma pgina de Frei Francisco de So Lus, ou uma 
ode do Padre Caldas, com a correo, nobreza, eloqncia e alma que Janurio sabia transmitir a seus alunos.
         
         Essa prenda que a educao deu-me para toma-la pouco depois, valeu-me em casa o honroso cargo de ledor, com que me eu desvanecia, como nunca me sucedeu 
ao depois no magistrio ou no parlamento.
         
         Era eu quem lia para minha boa me no somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romntica formada ao gosto do tempo.
         
         Morvamos, ento, na Rua do Conde, n 55. A nessa casa preparou-se a grande revoluo parlamentar que entregou ao Sr. D. Pedro II o exerccio antecipado 
de suas prerrogativas constitucionais.
         
         A propsito desse acontecimento histrico, deixe passar aqui nesta confidncia inteiramente literria, uma observao que me acode e, se escapa agora, talvez 
no volte nunca mais.
         
         Uma noite pr semana, entravam misteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Clube Maiorista de que era presidente o Conselheiro Antnio 
Carlos e Secretrio o Senador Alencar.
         
         Celebravam-se os seres em um aposento do fundo, fechando-se nessas ocasies a casa s visitas habituais, a fim de que nem elas nem os curiosos da rua suspeitassem 
do plano poltico, vendo iluminada a sala de frente.
         
         Enquanto deliberavam os membros do Clube, minha boa me assistia ao preparo de chocolate com bolinhos, que era costume oferecer aos convidados pr volta 
de nove horas, e eu, ao lado com impertinncias de filho querido, insistia pr saber o que ali ia fazer aquela gente.
         
         Conforme o humor em que estava, minha boa me s vezes divertia-se logrando com histrias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me falar s paredes 
e no se distraa de suas ocupaes de dona de casa.
         
         At que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas gulosinas a bandeja que voltava completamente destroada, eu que tinha os convidados 
na conta de cidados respeitveis, preocupados dos mais graves assuntos, indignava-me ante aquela devastao e dizia com a mais profunda convico:
         
         -O que estes homens vm fazer aqui  regalarem-se de chocolate.
         
         Essa, a primeira observao do menino em coisas de poltica, ainda a no desmentiu a experincia do homem. No fundo de todas as evolues l est o chocolate 
embora sob vrios aspectos.
         
         H caracteres ntegros, como o do Senador Alencar, apstolos sinceros de uma idia e mrtires dela. Mas estes so esquecidos na hora do triunfo, quando 
no servem de vtimas para aplacar as iras celestes.
         
         Suprima este mau trecho que insinuou-se malgrado e contra todas as usanas em uma palestra, seno au coin du feu, em todo o caso aqui neste cantinho da 
imprensa.
         
         Afora os dias de sesso, a sala do fundo era a estao habitual da famlia.
         
         No havendo visitas de cerimnia sentava-se minha boa me e sua irm D. Florinda com os amigos que pareciam, ao redor de uma mesa redonda de jacarand, 
no centro da qual havia um candeeiro. 
         
         Minha me e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para no ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos  conversao, 
passava-se  leitura e era eu chamado ao lugar de honra.
         
         Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono comeado ou de um folguedo querido; j naquela idade a reputao  um fardo 
e bem pesado.
         
         Lia-se at a hora do ch, e tpicos havia to interessantes que eu era obrigado  repetio. Compensavam esse excesso, as pausas para dar lugar s expanses 
do auditrio, o qual desfazia-se em recriminaes contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e simpatias o heri perseguido.
         
         Uma noite, daquelas em que eu estava mais possudo do livro, lia com expresso uma das pginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabea 
baixa, levavam o leno ao rosto, e poucos momentos depois no puderam conter os soluos que rompiam-lhes o seio.
         
         Com a voz afogada pela comoo e a vista empanada pelas lgrimas, eu tambm cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras 
de consolo s lamentaes de minha me e suas amigas.
         
         Nesse instante assomava  porta um parente nosso, o Revd. Padre Carlos Peixoto de Alencar, j assustado com o choro que ouvira ao entrar - Vendo-nos a 
todos naquele estado de aflio, ainda mais perturbou-se:
         
         -Que aconteceu? Alguma desgraa? Perguntou arrebatadamente.
         
         As senhoras, escondendo o rosto no leno para ocultar do Padre Carlos o pranto e evitar seus remoques, no proferiram palavra. Tomei eu a mim responder:
         
         -Foi o pai de Amanda que morreu! Disse, mostrando-lhe o livro aberto.
         Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como ele as sabia dar, verdadeira gargalhada homrica, que mais parecia uma salva de sinos a repicarem 
do que riso humano. E aps esta, outra e outra, que era ele inesgotvel, quando ria de abundncia de corao, com o gnio prazenteiro de que a natureza o dotara.
         
         Foi essa leitura contnua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu esprito a tendncia para essa forma literria que  entre todas 
a de minha predileo?
         
         No me animo a resolver esta questo psicolgica, mas creio que ningum contestar a influncia das primeiras impresses.
         
         J vi atribuir o gnio de Mozart e sua precoce revelao  circunstncia de ter ele sido acalentado no bero e criado com msica.
         
         Nosso repertrio romntico era pequeno; compunha-se de uma dzia de obras entre as quais primavam a Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e outras 
de que j no me recordo.
         
         Esta mesma escassez, e a necessidade de reler uma e muitas vezes o mesmo romance, qui contribuiu para mais gravar em meu esprito os moldes dessa estrutura 
literria, que mais tarde deviam servir aos informes esboos do novel escritor.
         
         
         
         IV
         
         
         O primeiro broto da semente que minha boa me lanara em meu esprito infantil, ignara dos desgostos que preparava a seu filho querido, veio dois anos depois.
         
         
         
         
         Entretanto  preciso que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lio de literatura, no foi ela que me estreou na carreira de escritor. Este ttulo 
cabe a outra composio, modesta e ligeira, e pr isso mesmo mais prpria para exercitar um esprito infantil.
         
         O dom de produzir a faculdade criadora, se a tenho, foi a charada que a desenvolveu em mim, e eu teria prazer em referir-lhe esse episdio psicolgico, 
se no fosse o receio de alongar-me demasiado, fazendo novas excurses fora do assunto que me produz.
         
         Foi em 1842.
         
         J ento havamos deixado a casa da Rua do Conde e morvamos na Chcara da Rua Maru, n 7, donde tambm saram importantes acontecimentos de nossa histria 
poltica. E todavia ningum se lembrou ainda de memorar o nome do Senador Alencar, nem mesmo pr esse meio econmico de uma esquina de rua.
         
         No vai nisso mais que um reparo, pois sou avesso a semelhante modo de honrar a memria de benemritos; alm de que ainda no perdi a esperana de escrever 
esse nome de minha venerao no frontispcio de um livro que lhe sirva de monumento. O seu vulto histrico, no o atingem pr certo as calnias pstumas que, sem 
reflexo, foram acolhidas em umas pginas ditas de histria constitucional; mas quantos dentre vs estudam conscienciosamente o passado?
         
         Como a revoluo parlamentar da maioridade, a revoluo popular de 1842 tambm saiu de nossa casa, embora o plano definitivo fosse adotado em casa do Senador 
Jos Bento,  Rua do Conde, 39
         
         Nos paroxismos, quando a abortada revoluo j no tinha glrias, mas s perigos para os seus adeptos, foi na Chcara do Senador Alencar que os perseguidos 
acharam asilo, em 1842 como em 1848.
         
         Entre os nossos hspedes da primeira revoluo, estava o meu excelente amigo Joaquim Sombra, que tomara parte no movimento sedicioso do Exu e sertes de 
Pernambuco.
         
         Contava ele ento os seus vinte e poucos anos: estava na flor da mocidade, cheio de iluses e entusiasmos. Meus versos arrebentados  fora de os esticar, 
agradavam-lhe ainda assim, porque no fim de contas eram um arremedo de poesia; e porventura levavam um perfume da primavera da alma.
         
         Vendo-me ele essa mania de rabiscar, certo dia props-me que aproveitasse para uma novela o interessante episdio da sedio, do qual era ele o protagonista.
         
         A idia foi aceita com fervor e tratamos logo de a pr em obra.
         
         A cena era em Paje de Flores, nome que s pr si enchia-me o esprito da fragrncia dos campos nativos, sem falar dos encantos com que os descrevia o meu 
amigo.
         
           Esse primeiro rascunho foi-se com os folguedos da infncia que o viram nascer. Das minhas primcias literrias nada conservo; lancei-as ao vento, como 
palhio que eram da primeira copa.
         
         No acabei o romance do meu amigo Sombra; mas em compensao de no te-lo feito heri de um poema, coube-me, vinte e sete anos depois, a fortuna mais prosaica 
de nome-lo coronel, posto que ele dignamente ocupa e no qual presta relevantes servios  causa pblica.
         
         Um ano depois, parti para So Paulo, onde ia estudar os preparatrios que me faltavam para a matrcula no curso jurdico.
         
         
         
         V
         
         
         Com a minha bagagem, l no fundo da canastra, iam uns cadernos escritos em letra mida e conchegada. Eram o meu tesouro literrio.
         
         Ali estavam fragmentos de romances, alguns apenas comeados, outros j no desfecho, mas ainda sem princpio.
         
         De charadas e versos, nem lembrana. Estas flores efmeras das primeiras guas tinham passado com elas. Rasgara as pginas dos meus canhenhos e  atirara 
os fragmentos no turbilho das folhas secas das mangueiras, a cuja sombra folgara aquele ano feliz de minha infncia.
         
         Nessa poca tinha eu dois moldes para o romance.
         
         Um merencrio, cheio de mistrios e pavores; esse, o recebera das novelas que tinha lido. Nele a cena comeava nas runas de um castelo, amortalhadas pelo 
bao claro da lua; ou nalguma capela gtica frouxamente esclarecida pela lmpada, cuja luz esbatia-se na lousa de uma campa.
         
         O outro molde, que me fora inspirado pela narrativa pitoresca do meu amigo Sombra, era risonho, louo, brincado, recendendo graas  e perfumes agrestes. 
A a cena abria-se em uma campina, marchetada de flores, e regada pelo sussurrante arroio que a bordava de recamos cristalinos.
         
         Tudo isto, porm, era esfumilho que mais tarde devia apagar-se.
         
         A pgina acadmica  para mim, como para os que a viveram, riqussima de reminiscncias, e nem podia ser de outra forma, pois abrange a melhor mono da 
existncia.
         
         No tomarei dela, porm, seno o que tem relao com esta carta.
         
         Ao chegar a So Paulo, era eu uma criana de treze anos, cometida aos cuidados de um parente, ento  estudante do terceiro ano, e que atualmente figura 
com lustre na poltica e na magistratura.
         
         Algum tempo depois de chegado, instalou-se a nossa repblica ou comunho acadmica  Rua de So Bento, esquina da Rua da Quitanda, em um sobradinho acachapado, 
cujas lojas do fundo eram ocupadas pr quitandeiras.
         
         Nossos companheiros foram dois estudantes do quinto ano; um deles j no  deste mundo; o outro pertence  alta magistratura, de que  ornamento. Naqueles 
bons tempos da mocidade, deleitava-o a literatura e era entusiasta do Dr. Joaquim Manuel de Macedo que pouco havia publicado o seu primeiro e gentil romance. - A 
Moreninha.
         
         Ainda me recordo das palestras em que meu companheiro de casa falava com abundncias de corao em seu amigo e nas festas campestres do romntico Itabora, 
das quais o jovem escritor era o dolo querido.
         
         Nenhum dos ouvintes bebia esses pormenores com tamanha avidez como eu, para quem eram completamente novos. Com a timidez e o acanhamento de meus treze anos, 
no me animava a intervir na palestra; escutava  parte; e pr isso ainda hoje tenho-as gravadas em minhas reminiscncias, a estas cenas do viver escolstico.
         
         Que estranho sentir no despertava em meu corao adolescente a notcia dessas homenagens de admirao e respeito tributados  ao jovem autor d'A Moreninha! 
Qual rgio diadema valia essa aurola de entusiasmo a cingir o nome de um escritor?
         
         No sabia eu ento que em meu pas essa luz, que dizem glria, e de longe se nos afigura radiante e esplndida, no  seno o bao lampejo de um fogo de 
palha.
         
         Naquele tempo o comrcio dos livros era, como ainda hoje, artigo de luxo; todavia, apesar de mais baratas, as obras literrias tinham menor circulao. 
Provinha isso da escassez das comunicaes com a Europa, e da maior raridade de livrarias e gabinetes de leitura.
         
         Cada estudante, porm, levava consigo a modesta proviso que juntara durante as frias, e cujo uso entrava logo para a comunho escolstica. Assim correspondia 
So Paulo s honras de sede de uma  academia, tornando-se o centro do movimento literrio.
         
         Uma das livrarias, a que maior cabedal trazia a nossa biblioteca, era de Francisco Otaviano, que herdou do pai uma escolhida coleo das obras dos melhores 
escritores da literatura moderna, a qual o jovem poeta no se descuidava de enriquecer com as ltimas publicaes.
         
         Meu companheiro de casa era dos amigos de Otaviano, e estava no direito de usufruir sua opulncia literria. Foi assim que um dia vi pela primeira vez o 
volume das obras completas de Balzac, nessa edio em folha que os tipgrafos da Blgica vulgarizam pr preo mdico.
         
         As horas que meu companheiro permanecia fora, passava-as eu com o volume na mo, a reler os ttulos de cada romance da coleo, hesitando na escolha daquele 
pr onde havia de comear. Afinal decidia-me pr um dos mais pequenos; porm, mal comeada a leitura, desistia ante a dificuldade.
         
         Tinha eu feito exame de francs  minha chegada em So Paulo e obtivera aprovao plena, traduzindo uns trechos do Telmaco e da Henriqueida; mas, ou soubesse 
eu de outiva a verso que repeti, ou  o francs de Balzac no se parecesse em nada com o de Fenelon e Voltaire; o caso  que no conseguia compreender um perodo 
de qualquer dos romances da coleo.
         
         Todavia achava eu um prazer singular em percorrer aquelas pginas, e pr um ou outro fragmento de idia que podia colher nas frases indecifrveis, imaginava 
os tesouros que ali estavam defesos  minha ignorncia.
         
         Conto-lhe este pormenor para que veja quo descurado foi o meu ensino de francs, falta que se deu em geral com toda a minha instruo secundria, a qual 
eu tive de refazer na mxima parte, depois de concludo o meu curso de direito, quando senti a necessidade de criar uma individualidade literria.
         
         Tendo meu companheiro concludo a leitura de Balzac, a instncias minhas, passou-me o volume, mas constrangido pela oposio de meu parente que receava 
dessa diverso.
         
         Encerrei-me com o livro e preparei-me para a luta. Escolhido o mais breve  dos romances, armei-me do dicionrio e, tropeando a cada instante, buscando 
significados de palavra em palavra, tornando atrs para reatar o fio da orao, arquei sem esmorecer com a mproba tarefa. Gastei oito dias com a Grenadire; porm 
um ms depois acabei o volume de Balzac; e no resto do ano li o que ento havia de Alexandre Dumas e Alfredo Vigny, alm de muito de Chateaubriand e Victor Hugo.
         
         A escola francesa, que eu ento estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado 
pr mera casualidade aquele arrojo de criana a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com a elegncia e beleza que jamais lhe 
poderia dar.
         
         E a est, porque justamente quando a sorte me deparava o modelo a imitar, meu esprito desquita-se dessa, a primeira e a mais cara de suas aspiraes, 
para devanear pr outras devesas literrias, onde brotam flores mais singelas e modestas.
         
         O romance, como eu agora o admirava, poema da vida real, me aparecia na altura dessas criaes sublimes, que a Providncia s concede aos semideuses do 
pensamento; e que os simples mortais no podem ousar, pois arriscam-se a derreter-lhes o sol, como a caro, as penas de cisnes grudadas com cera.
         
         Os arremedos de novelas, que eu escondia no fundo de meu ba, desprezei-os ao vento. Pesa-me ter destrudo as provas desses primeiros tentamens que seriam 
agora relquias para meus filhos e estmulos para fazerem melhor. S pr isso, que de valor literrio no tinham nem ceitil. 
         
         Os dois primeiros anos que passei em So Paulo. Foram para mim de contemplao e recolhimento de esprito. Assistia arredio ao bulcio acadmico e familiariza-me 
de parte com esse viver original, inteiramente desconhecido para mim, que nunca fora pensionista de colgio, nem havia at ento deixado o regao da famlia.
         
         As palestras  mesa do ch, as noites de cinismo conversadas at o romper da alva, entre a fumaa dos cigarros; as anedotas e aventuras da vida acadmica, 
sempre repetidas; as poesias clssicas da literatura paulistana e as cantigas tradicionais do povo estudante; tudo isto sugava o meu esprito a linfa, para mais 
tarde desabrochar a talvez plida florinha.
         
         Depois vinham os discursos recitados nas solenidades escolares, alguma nova poesia de Otaviano, os brindes nos banquetes de estudantes, o aparecimento de 
alguma obra recentemente publicada na Europa e outras novidades literrias, que agitavam a rotina de nosso viver habitual e comoviam um instante a colnia acadmica.
         
         No me recordo de qualquer tentmen literrio de minha parte, at fins de 1844.  Os estudos de filosofia e histria preenchiam o melhor de meu tempo, e 
de todo me traam..
         
         O nico tributo que paguei ento  moda acadmica, foi o das citaes. Era nesse ano bom-tom ter de memrias frases e trechos escolhidos dos melhores autores, 
para repeti-los a propsito.
         
         Vistos de longe, e atravs da razo, esses arremedos de erudio, arranjados com seus remendos alheios, nos parecem ridculos; e todavia  esse jogo de 
imitao que primeiro imprime ao esprito a flexibilidade, como ao corpo o da ginstica.
         
         Em 1845, voltou-me o prurido de escritor; mas esse ano foi consagrado  mania, que ento grassava, de baironizar. Todo estudante de alguma imaginao queria 
ser um Byron; e tinha pr destino inexorvel copiar ou traduzir o bardo ingls.
         
         Confesso que no me sentia o menor jeito para essa transfuso; talvez pelo meu gnio taciturno e concentrado que j tinha em si melancolia de sobejo, para 
no carecer desse emprstimo. Assim  que nunca passei de algumas peas ligeiras, das quais no me figurava heri e nem mesmo autor; pois divertia-me em escreve-las, 
com o nome de Byron, Hugo ou Lamartine, nas paredes de meu aposento,  Rua de Santa Tereza, onde alguns camaradas daquele tempo, ainda hoje meus bons amigos, os 
Doutores Costa Pinto e Jos Brusque talvez se recordem de as terem lido.
         
         Era um discurso aos ilustres poetas atribuir-lhes versos de confeco minha; mas a broxa do caiador, incumbido de limpar a casa pouco tempo depois de minha 
partida, vingou-os desse inocente estratagema, com que nesse tempo eu libava a delcia mais suave para o escritor: ouvir ignoto o louvor de seu trabalho.
         
         Que satisfao ntima no tive eu, quando um estudante que era ento o inseparvel amigo de Otaviano e seu irmo em letras, mas hoje chama-se o Baro de 
Ourm, releu com entusiasmo uma dessas poesias, seduzido sem dvida, pelo nome de pseudo-autor!  natural que hoje nem se lembre desse pormenor; e mal saiba que 
todos os cumprimentos que depois recebi de sua cortesia, nenhum valia aquele espontneo movimento.
         
         Os dois anos seguintes pertencem  imprensa peridica. Em outra ocasio escreverei esta, uma das pginas mais agitadas da minha adolescncia. Da datam 
as primeiras razes de jornalista; como todas as manifestaes de minha  individualidade, essa tambm iniciou-se no perodo orgnico.
         
         O nico homem novo e quase estranho que nasceu em mim com a virilidade, foi o poltico. Ou no tinha vocao para essa carreira, ou considerava o governo 
do estado coisa to importante e grave, que no me animei nunca a ingerir-me nesses negcios. Entretanto eu saa de uma famlia para quem  a poltica era uma religio 
e onde se haviam elaborado grandes acontecimentos de  nossa histria.
         
         Fundamos, os primeiranistas de 1846, uma revista semanal sob o ttulo - Ensaios Literrios.
         
         Dos primitivos colaboradores desse peridico, saudado no seu aparecimento pr Otaviano e Olmpio Machado, j ento redatores da Gazeta Oficial, faleceu, 
ao terminar o curso, o Dr. Arajo, inspirado poeta. Os outros a andam dispersos pelo mundo. O Dr. Jos Machado Coelho de Castro  presidente do Banco do Brasil; 
o Dr. Joo Guilherme Whitaker  juiz de direito em So Joo do Rio Claro; e o conselheiro Joo de Almeida Pereira, depois de ter luzido no ministrio e no parlamento, 
repousa das lides polticas no remanso da vida privada. 
         
         
         VI
         
         Foi somente em 1848 que ressurgiu em mim a veia do romance.
         
         Acabava de passar dois meses em minha terra natal. Tinha-me repassado das primeiras e to fagueiras recordaes da infncia, ali nos mesmos stios queridos 
onde nascera.
         
         Em Olinda onde estudava meu terceiro ano e na velha biblioteca do convento de So Bento a ler os cronistas da era colonial, desenhavam-se a cada instante, 
na tela das reminiscncias, as paisagens de meu ptrio Cear.
         
         Eram agora os seus tabuleiros gentis; logo aps as vrzeas amenas e graciosas; e pr fim as matas seculares que vestiam as seras como a ararria  verde 
do guerreiro tabajara.
         E atravs destas tambm esfumavam-se outros painis, que me representavam o serto em todas as suas galas de inverno, as selvas gigantes que se prolongam 
at os Andes, os raios caudalosos que avassalam o deserto, e o majestoso So Francisco transformado em um oceano, sobre o qual eu navegara um dia.
         
         Cenas estas que eu havia contemplado com olhos de menino dez anos antes, ao atravessar essas regies em jornada do Cear  Bahia; e que agora se debuxavam 
na memria do adolescente, e coloriam-se ao vivo com as tintas frescas da palheta cearense.
         
         Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto d'O Guarani ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as pginas dos alfarrbios 
de notcias coloniais, buscava com sofreguido um tema para o meu romance; ou peo menos um protagonista, uma cena e uma poca.
         
         Recordo-me de que para o martrio do Padre Francisco Pinto, morto pelos ndios do Jaguaribe, se volvia meu esprito com predileo. Intentava eu figur-lo 
na mesma situao em que se achou o Padre Anchieta, na praia de Iperog; mas sucumbindo afinal  tentao. A luta entre o apstolo e o homem, tal seria o drama, 
para o qual de certo me faleciam as foras.
         
         Atualmente que, embora em cena diversa, j tratei o assunto em um livro prximo a vir a luma, posso avaliar da dificuldade da empresa.
         
         Sbito todas aquelas lucubraes literrias apagaram-se em meu esprito. A molstia tocara-me com sua mo descarnada ; e deixou-me uma espcie de terror 
da solido em que tanto se deleitava o meu esprito, e onde se embalavam as cismas e devaneios de fantasia. Foi quando desertei de Olinda, onde s tinha  casa de 
estado, e aceitei a boa hospitalidade de meu velho amigo Dr. Camarim, ento colega de ano e um dos seis da colnia paulistana, a que tambm  pertenciam o conselheiro 
Jesuno Marcondes e o Dr. Lus lvares.
         
         Dormiram as letras, e creio que tambm a cincia, um sono folgado. De pouco se carecia para fazer ento em Olinda um exame sofrvel e obter a aprovao 
plena. Em novembro regressei  Corte, com a certido precisa para a matrcula do 4 ano,. Tinha cumprido o meu dever.
         Nessas frias, enquanto se desenrolava a rebelio de que eu vira o assomo e cuja catstrofe chorei com os meus olhos, refugiei-me da tristeza que envolvia 
nossa casa, na literatura amena.
         
         Com as minhas bem parcas sobras, tomei uma assinatura em um gabinete de leitura que ento havia  Rua da Alfndega, e que possua copiosa coleo das melhores 
novelas e romances at ento sados dos prelos franceses e belgas.
         
         Nesse tempo, como ainda hoje, gostava de  mar; mas naquela idade as predilees tm mais vigor e so paixes. No somente a vista do oceano, suas majestosas 
perspectivas, a magnitude de sua criao, como tambm a vida martima, essa temeridade do homem em luta com o abismo, me enchiam de entusiasmo e admirao.
         
         Tinha em um ano atravessado o oceano quatro vezes, e uma delas no brigue-escuna Laura que me transportou do Cear ao Recife com uma viagem de onze dias 
 vela. Essas impresses recentes alimentavam a minha fantasia.
         
         Devorei os romances martimos de Walter Scott e Cooper, um aps outro; passei aos do Capito Marryat e depois a quantos se tinham escrito desse gnero, 
pesquisa em que me ajudava o dono do gabinete, em francs, de nome Cremieux, se bem me recordo, o qual tinha na cabea toda a sua livraria.
         
         Li nesse discurso muita coisa mais: o que me faltava de Alexandre Dumas e Balzac, o que encontrei de Arlincourt, Frederico Souli, Eugnio Sue e outros. 
Mas nada valia para mim as grandiosas marinhas de Scott e Cooper e os combates hericos de Marryat.
         
         Foi ento, faz agora vinte e seis anos, que formei o primeiro esboo regular de um romance, e meti ombros  empresa com infatigvel porfia. Enchi rimas 
de papel que tiveram a m sorte de servir de mecha para acender o cachimbo.
         
         Eis o caso. J formado e praticante no escritrio do Dr. Caetano Alberto, passava eu o dia, ausente de nossa chcara,  Rua do Maru, n 7 A. 
         
         Meus queridos manuscritos, o mais precioso  tesouro para mim, eu os trancara na cmoda; como, porm, tomassem o lugar da roupa, os tinham, sem que eu soubesse, 
arrumado na estante.
         
         Da, um desalmado hspede, todas as noites quando queria pitar, arrancava uma folha, que torcia a modo de pavio e acendia na vela. Apenas escaparam ao incendirio 
alguns captulos em dois canhenhos, cuja letra mida a custo se distingue no borro de que a tinta. Oxidando-se com o tempo,saturou o papel.
         
         Tinha esse romance pr ttulo - Os Contrabandistas. Sua feitura havia de ser consoante  inexperincia de um moo de 18 anos, que nem possua o gnio precoce 
de Victor Hugo, nem tinha outra educao literria, seno essa superficial e imperfeita, bebida em leituras a esmo. Minha ignorncia dos estudos clssicos era tal, 
que eu s conhecia Virglio e Horcio, como pontos difceis do exame de latim, e de Homero apenas sabia o nome e a reputao. 
         
         
         Mas o trao d'Os Contrabandistas, como o gizei aos 18 anos, ainda hoje o tenho pr um dos melhores e mais felizes de quantos me sugeriu a imaginao. Houvesse 
editor para as obras de longo flego, que j essa andaria a correr mundo, de preferncia a muitas outras que dei  estampa nestes ltimos anos.
         
         A variedade dos gneros que abrangia este romance, desde o idlio at a epopia, era o que sobretudo me prendia e agradava. Trabalhava, no pela ordem dos 
captulos, mas destacadamente esta ou aquela das partes em que se dividia a obra. Conforme a disposio do esprito e veia da imaginao, buscava entre todos o episdio 
que mais se moldava s idias do momento. Tinha para no perder-me nesse Ddalo o fio da ao que no cessava de percorrer.
         
         A estas circunstncias atribuo ter o meu pensamento, que eu sempre conheci vida de novidade, se demorado nesse esboo pr tanto tempo; pois, quatro anos 
depois, j ento formado, ainda era aquele o tema nico de meus tentamens no romance; e se alguma outra idia despontou, foi ela to plida e efmera que no deixou 
vestgios.
         
         
         VII
         
         
         Eis-me de repente lanado no turbilho do mundo.
         
         Ao cabo de quatro anos de tirocnio na advocacia, a imprensa diria, na qual apenas me arriscara como folhetinista, arrebatou-me. Em fins de 1856 achei-me 
redator-chefe do Dirio do Rio de Janeiro.
         
          longa a histria dessa luta, que absorveu cerca de trs dos melhores anos de minha mocidade. A se acrisolaram as audcias que desgostos, insultos, nem 
ameaas conseguiram quebrar at agora; antes parece que as afiam com o tempo.
         
         Ao findar o ano, houve idia de oferecer aos assinantes da folha, um mimo de festa. Saiu um romancete, meu primeiro livro, se tal nome cabe a um folheto 
de 60 pginas.
         
         Escrevi Cinco Minutos em meia dzia de folhetins que iam saindo na folha dia  pr dia, e que foram depois tirados em avulso sem nome do autor. A prontido 
com que em geral antigos e novos assinantes reclamavam seu exemplar, e a procura de algumas pessoas que insistiam pr comprar a brochura, somente destinada  distribuio 
gratuita entre os subscritores do jornal; foi a nica, muda mas real, animao que recebeu essa primeira prova.
         
         Bastou para suster a minha natural perseverana. Tinha leitores e espontneos, no iludidos pr falsos anncios. Os mais pomposos elogios no valiam, e 
nunca valero para mim, essa silenciosa manifestao, ainda mais sincera nos pases como o nosso de opinio indolente.
         
         Logo depois do primeiro ensaio, veio A Viuvinha. Havia eu em poca anterior comeado este romancete, invertendo a ordem cronolgica dos acontecimentos. 
Deliberei porm mudar o plano, e abri a cena com o princpio da ao.
         
         Tinha eu escrito toda a primeira parte, que era logo publicada em folhetins; e contava aproveitar na segunda o primeiro fragmento; mas, quando o procuro,dou 
pela falta.
         
         Sabidas as contas, Leonel que era ento o encarregado da revista semanal, Livro do Domingo, como ele intitulou, achando-se um sbado em branco, pediu-me 
alguma coisa com que encher o rodap da folha. Ocupado com outros assuntos, deixei que buscasse entre os meus borres. No dia seguinte lograva ele aos leites dando-lhes 
em vez da habitual palestra, um conto. Era este o meu princpio de romance ao qual ele tinha posto, com uma linha de reticncias e duas de prosa, um desses sbitos 
desenlaces que fazem o efeito de uma guilhotina literria.
         
         Fatigado do trabalho da vspera, urgido pelas ocupaes do dia, em constantes tribulaes, nem sempre podia eu passar os olhos pr toda a folha.
         
         Nesse domingo no li a revista, cujo teor j me era conhecido, pois sara-me da pasta.
         
         Imagine, como fiquei, em meio de um romance, cuja continuao o leitor j conhecia oito dias antes. Que fazer? Arrancar do Livro do Domingo, as pginas 
j publicadas? Podia-o fazer; pois o folhetinista no as dera como suas, e deixara entrever o autor; mas fora matar a iluso.
         
         Da veio o abandono desse romance, apesar dos pedidos que surgiam a espaos, instando pela concluso. S trs anos depois, quando meu amigo e hoje meu cunhado, 
Dr. Joaquim Bento de Souza Andrade, quis publicar uma segunda edio de Cinco Minutos, escrevi eu o final d'A Viuvinha, que faz parte do mesmo volume.
         
         O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o pensamento para um terceiro, porm este j de maior flego. Foi O Guarani, que escrevi 
dia pr dia para o folhetim do Dirio, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, se bem me recordo.
         
         No meio das labutaes do jornalismo, oberado no somente com a redao de uma folha diria, mas com a administrao da empresa, desempenhei-me da tarefa 
que me impusera, e cujo alcance eu no medira ao comear a publicao, apenas com os dois primeiros captulos escritos.
         
         Meu tempo dividia-se desta forma. Acordava, pr assim dizer, na mesa do trabalho; e escrevia o resto do captulo comeado no dia antecedente para envia-lo 
 tipografia. Depois do almoo entrava pr novo captulo que deixava em meio. Saa ento para fazer algum exerccio antes do jantar no "Hotel de Europa". A tarde, 
at nove ou dez horas da noite, passava no escritrio da redao, onde escrevia o artigo editorial e o mais que era preciso.
         
         O resto do sero era repousar o esprito dessa rdua tarefa jornaleira, em alguma distrao, como o teatro e as sociedades.
         
         Nossa casa no Largo do Rocio, n 73, estava em reparos. Trabalhava eu num quarto do segundo andar, ao estrpito do martelo, sobre uma banquinha de cedro, 
que apenas chegava para o mister da escrita; e onde a minha velha caseira ngela servia-me o parco almoo. No tinha comigo um livro; e socorria-me unicamente a 
um canhenho, em que havia em notas o fruto de meus estudos sobre a natureza e os indgenas do Brasil.
         
         Disse algum, e repete-se pr a de outiva que O Guarani  um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidncia, e nunca imitao; mas no 
. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as vrzeas do Cear com as margens do Delaware.
         
         A impresso profunda que em mim deixou Cooper foi, j lhe disse, como poeta do mar. D'Os Contrabandistas, sim, poder-se-ia dizer, apesar da originalidade 
da concepo, que foram inspirados pela leitura do Piloto, do Corsrio, do Varredor do Mar etc. Quanto  poesia americana, o modelo para mim ainda hoje  Chateaubriand; 
mas o mestre que eu tive, foi esta esplndida natureza que me envolve, e particularmente a magnificncia dos desertos que eu perlustrei ao entrar na adolescncia, 
e foram o prtico majestoso pr onde minha alma penetrou no passado de sua ptria. 
         
         Da, desse livro secular e imenso,  que eu tirei as pginas d'O Guarani, as de Iracema, e outras muitas que uma vida no bastaria a escrever. Da e no 
das obras de Chateaubriand, e menos das de Cooper, que no eram seno a cpia do original sublime, que eu havia lido com o corao.
         
         O Brasil tem, como os Estados Unidos, e quaisquer outros povos da Amrica, um perodo de conquista, em que a raa invasora destri a raa indgena. Essa 
luta apresenta um carter anlogo, pela semelhana dos aborgenes. S no Peru e Mxico difere.
         
         Assim o romancista brasileiro que buscar o assunto do seu drama nesse perodo da invaso, no pode escapar ao ponto de contacto com o escritor americano. 
Mas essa aproximao vem da histria,  fatal, e no resulta de uma imitao. 
         
         Se Chateaubriand e Cooper no houvessem existido, o romance americano havia de aparecer no Brasil a seu tempo.
         
         Anos depois de escrito O Guarani, reli Cooper a fim de verificar a observao dos crticos e convenci-me de que ela no passa de um rojo. No h no romance 
brasileiro um s personagem de cujo tipo se encontre o molde nos Moicanos, Espo, Ontrio, Sapadores e Leonel Lincoln. 
         
         N'O Guarani derrama-se o lirismo de uma imaginao mpa, que tem como a primeira rama o vcio da exuberncia; pr toda a parte a linfa, pobre de seiva, 
brota em flor ou folha. Nas obras do eminente romancista americano, nota-se a singeleza e parcimnia do prosador, que se no deixa arrebatar pela fantasia, antes 
a castiga.
         
         Cooper  considera o indgena sob o ponto de vista social, e na descrio dos seus costumes foi realista; apresentou-o sob aspecto vulgar.
         
         N'O Guarani o selvagem  um ideal, que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridculo 
que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raa.
         
         Mas Cooper descreve a natureza americana, dizem os crticos. E que havia ele de descrever, seno a cena de seu drama? Antes dele Walter Scott deu o modelo 
dessas paisagens  pena, que fazem parte da cor local.
         
         O que se precisa examinar  se as descries d'O Guarani tm algum parentesco ou afinidade com as descries de Cooper; mas isso no fazem os crticos, 
porque d trabalho e exige que se pense. Entretanto basta o confronto para conhecer que no se parecem nem no assunto, nem no gnero e estilo.
         
         A edio avulsa que se tirou d'O Guarani, logo depois de concluda a publicao em folhetim, foi comprada pela livraria do Brando, pr um conto e quatrocentos 
mil ris que cedi  empresa. Era essa edio de mil exemplares, porm trezentos estavam truncados, com as vendas de volumes que se faziam  formiga na tipografia. 
Restavam pois setecentos, saindo o exemplar a 2$000.
         
         Foi isso em 1857. Dois anos depois comprava-se o exemplar a 5$000 e mais. Nos belchiores  que o tinham a cavalo do cordel, embaixo dos arcos do Pao, donde 
o tirou o Xavier Pinto para a sua livraria da Rua dos Ciganos. A indiferena pblica, seno o pretensioso desdm da roda literria, o tinha deixado cair nas pocilgas 
dos alfarrabistas.
         
         Durante todo esse tempo e ainda muito depois, no vi na imprensa qualquer elogio, crtica ou simples notcia do romance, a no ser em uma folha do Rio Grande 
do Sul, como razo para a transcrio dos folhetins. Reclamei contra esse abuso, que cessou; mas posteriormente soube que aproveitou-se a composio j adiantada 
para uma tiragem avulsa. Com esta anda atualmente a obra na sexta edio.
         
         Na  bela introduo que Mendes Leal escreveu ao seu Calabar, se extasiava ante os tesouros da poesia brasileira, que ele supunha completamente desconhecidos 
para ns. "E tudo isto oferecido ao romancista, virgem, intacto, para escrever, para animar, para reviver".
         
         Que ele o dissesse, no h estranhar, pois ainda hoje os literatos portugueses no conhecem da nossa literatura, seno o que se lhes manda de encomenda 
com um ofertrio de mirra e incenso. Do mais no se ocupam; uns pr economia, outros pr desdm. O Brasil  um mercado para seus livros e nada mais.
         
         
         No se compreende, porm, que uma folha brasileira, como era o  Correio Mercantil, anunciando a publicao do Calabar, insistisse na idia de ser essa obra 
uma primeira lio do romance nacional dada aos escritores brasileiros, e no advertisse que dois anos antes um compatriota e seu ex-redator se havia estreado nessa 
provncia literria.
         
         "H muito que o autor pensava na tentativa de criar no Brasil para o Brasil um gnero de literatura para que ele parece to afeito e que lhe pode fazer 
servios reais". Quando Mendes Leal escrevia em Lisboa estas palavras, o romance americano j no era uma novidade para ns; e tinha n'O Guarani um exemplar, no 
arreado dos primores do Calabar, porm incontestavelmente mais brasileiro.
         
         
         
         VIII
         
         
         Hoje em dia quando surge algum novel escritor, o aparecimento de seu primeiro trabalho  uma festa, que celebra-se na imprensa com luminrias e fogos de 
vistas. Rufam todos  os tambores do jornalismo, e a literatura forma parada e apresenta armas ao gnio triunfante que sobe ao Panteo.
         
         Compare-se essa estrada, tapeada de flores, com a rota asprrima que eu tive de abrir, atravs da indiferena e do desdm, desbravando as urzes da intriga 
e da maledicncia.
         
         Outros romances  de crer que sucedessem a O  Guarani no folhetim do Dirio; se meu gosto no se voltasse ento para o teatro. De outra vez falarei da feio 
dramtica de minha vida literria; e contarei como e porque veio-me essa fantasia. Aqui no se trata seno do romancista.
         
         Em 1862 escrevi Lucola, que editei pr minha conta e com o maior sigilo. Talvez no me animasse a esse cometimento, se a venda da segunda e terceira edio 
ao Sr. Garnier, no me alentasse a confiana, provendo-me de recursos para os gastos da impresso. O aparecimento de meu novo livro fez-se com a etiqueta, ainda 
hoje em voga, dos anncios e remessa de exemplares  redao dos jornais. Entretanto toda a imprensa diria resumiu-se nesta notcia de um laconismo esmagador, publicada 
pelo Correio Mercantil: "Saiu  luz um livro intitulado Lucola".  Uma folha de caricaturas trouxe algumas linhas pondo ao romance tachas de francesia.
         
         H de ter ouvido algures, que eu sou um mimoso do pblico, cortejado pela imprensa, cercado de uma voga de favor, vivendo da falsa e ridcula idolatria 
a um romance oficial. A tem as provas cabais; e pr elas avalie dessa nova 
         conspirao do despeito que veio substituir a antiga conspirao do silncio e da indiferena.
         
         Apesar do desdm da crtica de barrete, Lucola conquistou seu pblico, e no somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um ano esgotou-se a primeira 
edio de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguais condies ouro perfil de mulher, que eu ento gizava.
         
         Pr esse tempo fundou a sua Biblioteca Brasileira, o meu amigo Sr. Quintino Bocaiva, que teve sempre um fraco pelas minhas sensaborias literrias. Reservou-me 
um de seus volumes, e pediu-me com que enche-lo. Alm de esboos e fragmentos, no guardava na pasta seno uns dez captulos de romance comeado.
         
         Aceitou-os, e em boa hora os deu a lume; pois esse primeiro tomo desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier a editar a concluso. Sem 
aquela insistncia de Quintino Bocaiva, As Minas de Prata, obra de maior trao, nunca sairia da crislida e os captulos j escritos estariam fazendo companhia 
a Os Contrabandistas.
         
         De volta de So Paulo, onde fiz uma excurso de sade, e j em frias de poltica, com a dissoluo de 13 de maio de 1863, escrevi Diva que saiu a lume 
no ano seguinte, editada pelo Sr. Garnier.
         
         Foi dos meus romances - e j andava no quinto, no  contando o volume d'As Minas de Prata - o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diria, e foi 
acolhido com os cumprimentos banais da cortesia jornalstica. Teve mais: o Sr. H Muzzio consagrou-lhe no Dirio do Rio um elegante folhetim, mas de amigo que no 
de crtico.
         
         Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existncia descuidosa e solteira para entrar na vida da famlia onde o homem  se completa. Como a literatura 
nunca fora para mim uma Bomia, e somente um modesto Tibur para o esprito arredio, este sempre grande acontecimento da histria individual no marca poca na minha 
crnica literria.
         
         A composio dos cinco ltimos volumes d'As Minas de Prata ocupou-me trs meses entre 1864 e 1865, porm a demorada impresso estorvou-me um ano, que tanto 
durou. Ningum sabe da m influncia que tem exercido na minha carreira de escritor, o atraso de nossa arte tipogrfica, que um constante caiporismo torna em pssima 
para mim.
         
         Se eu tivesse a fortuna de achar oficinas bem montadas com hbeis revisores, meus livros sairiam mais corretos; a ateno e o tempo pr mim despendidos 
em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor aproveitados em compor outra obra.
         
         Para publicar Iracema em 1869, fui obrigado a edita-lo pr minha conta; e no andei mal inspirado, pois antes de dois anos a edio extinguiu-se.
         
         De todos os meus trabalhos deste gnero nenhum havia merecido as honras que a simpatia e a confraternidade literria se esmeram em prestar-lhes. Alm de 
agasalhado pr todos os jornais, inspirou a Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliogrficas.
         
         At com surpresa minha atravessou o oceano, e granjeou a ateno de um crtico ilustrado e primoroso escritor portugus, o Sr. Pinheiros Chagas, que dedicou-lhe 
um de seus ensaios crticos.
         
         Em 1868 a alta poltica arrebatou-me s letras para s restituir-me em 1870. To vivas eram as saudades dos meus borres, que apenas despedi a pasta auri-verde 
dos negcios de estado, fui tirar da gaveta onde a havia escondido, a outra pasta de velho papelo, todo rabiscado, que era ento a arca de meu tesouro.
         
         A comea outra idade de autor, a qual eu chamei de minha velhice literria,  adotando o pseudnimo de Snio, e outros querem seja a da decrepitude. No 
me afligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as veras, desejaria fazer-me escritor pstumo, trocando de boa vontade os favores do presente pelas severidades do 
futuro.
         
         Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de novo, seno um ou outro pormenor de psicologia literria, que omito pr no alongar-me 
ainda mais. Afora isso, o resto  montono, e no passaria de datas, entremeadas da inesgotvel serrazina dos autores contra os tipgrafos que lhes estripam o pensamento.
         
         Ao cabo de vinte e dois anos de gleba na imprensa, achei afinal um editor, o Senhor B. Garnier, que espontaneamente ofereceu-me um contrato vantajoso em 
meados de 1870.
         
         O que lhe deve a minha coleo, ainda antes do contrato, ter visto nesta carta; depois, trouxe-me esta vantagem, que na concepo de um romance e na sua 
feitura, no me turva a mente a lembrana do tropeo material, que pode matar o livro, ou fazer dele uma larva.
         
         Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O Magnus Apollo da poesia moderna, o deus da inspirao e pai das musas deste sculo,  essa entidade que se chama 
editor e o seu Parnaso uma livraria. Se outrora houvesse Homeros, Sfocles, Virglios, Horcios e Dantes, sem tipografia nem impressor,  porque ento escrevia-se 
nessa pgina imortal que se chama a tradio. O poeta cantava; e seus carmes se iam gravando no corao do povo.
         
         Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um editor, o bom livro  no Brasil e pr muito tempo ser para seu autor, um desastre financeiro. O cabedal 
de inteligncia e trabalho que nele se emprega, daria em qualquer outra aplicao, lucro cntuplo.
         
         Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, produto de minhas obras. E, ningum ousaria acredita-lo, imputaram-me isso a crime, alguma cousa 
como srdida cobia.
         
         Que pas  este onde forja-se uma falsidade, e para que? Para tornar odiosa e desprezvel a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre trabalho, o da inteligncia!
         
         Dir-me- que em toda a parte h dessa praga; sem dvida, mas  praga; e no tem foros e respeitos de jornal,admitindo ao grmio da imprensa.
         
         Excedi-me alm do que devia; o prazer da conversa...
         
         Maio de 1873.
         
         
NOTAS

1. Hoje  com a mania das crismas, do Visconde do Rio Branco. - J.A . 
2. Conselheiro Leonel de Alencar, hoje Baro de Alencar.
3. Aqui ficou interrompida a frase final deste trabalho, j datado e assinado pelo seu autor.













PARA O ESTUDO DA OBRA DE
JOS DE ALENCAR

1. Alencar, Heron: "Jos de Alencar e a fico romntica". A Literatura no Brasil. Rio, Editorial Sul- Americana, 1955, vol. I, tomo II.

2. Araripe Jnior, T. A: "Jos de Alencar". Rio, Frauchon e Cia., 1894.

3. Coutinho Afrnio: "O Terico Alencar", Apresentao de Como e Porque Sou Romancista. Rio, Academia Brasileira de Letras, 1987.

4. Freire, Gilberto: "Reinterpretando Jos de Alencar". Os Cadernos de Cultura. Rio, MEC, 1955.

5. Juc (Filho), Cndido: "A Gramtica de Jos de Alencar". Rio, Colgio Pedro II, 1966.

6. Lima, Alceu de Amoroso: "Alencar Crtico". Estudos. 4 srie. Rio, Centro D. Vital, 1931.

7. Magaldi, Sbato: Panorama do Teatro Brasileiro. So Paulo, Difuso Europia. 1962.

8. Melo, Gladstone Chaves de: "A Lngua de Jos de Alencar". Obras Completas. Rio, Jos Olympio, 1951, vol. X.

9. Proena, M. Cavalcanti: Estudos Literrios. Rio, Jos Olympio - MEC, 1974.

10. Proena, M. Cavalcanti: Jos de Alencar  na Literatura Brasileira. Rio, Editora Civilizao Brasileira, 1972.

11. Proena, M. Cavalcanti: "Introduo Geral", Obra Completa. Rio, Jos Aguilar, 1959.

12. Sant'Anna, Afonso Romano de: Anlise estrutural de romances brasileiros. Rio, Vozes, 1974.

13. Souza, Antonio Cndido de Mello: "Os Trs Alencares". Formao da Literatura Brasileira, Momentos Decisivos. S. Paulo, Martins, 2 Edio, 1963.
